Há alguns meses, este blog se transformou em depósito de contos que um dia pretendo juntar e implorar a uma editora batuta que os transforme em livro.
Se você for um visitante de boa vontade, por favor, leia tudo com atenção e dê sua opinião sincera. Se a opinião não for sincera, dispenso. Você não ganha nada puxando meu saco ou botando defeito onde não tem. Bem, você também não ganha nada sendo sincero, apenas a minha eterna simpatia - coisa que algumas pessoas julgam valiosa, outras não.
Se você não é um visitante de boa vontade, então passe os olhos pelos textos, clique nos links, masturbe-se, enfim, faça o que quiser: não é comigo.
Se você for uma editora batuta, por favor transforme isso em um livro.
(Considerações idiotas sobre o cotidiano ainda têm espaço neste blog, mas raramente).
- Layout feito por mim, numa noite de ócio. Caso você tenha trauma de HTML, eu posso fazer um pra você: basta oferecer DINHEIRO.
- A foto é daqui, e é claro que eu não pedi permissão para usá-la, pois sou cara-de-pau e tímida.
Quem
Marjorie Rodrigues, estudante de jornalismo da ECA-USP À PROCURA DE ESTÁGIO, CATSO!
Quero trabalhar para a ONU, publicar um livro, deflorar um ruivo natural e ganhar um Jabuti, tudo isso antes dos vinte e cinco.
Não acredito em deus nem em astrologia, não dou sorte no amor e não gosto de cheiro de caju. Minha mãe e meia dúzia de ami-gos dizem que eu sou legal.
Se quiser saber qualquer outra coisa, PERGUNTE. Não se faça de rogado!
Cliques
O embrulho de banana é um fanzine bem legal, do qual eu participei em 2006. Você pode recebê-lo (DE GRAÇA!) pelo correio. No site, estão todas as edições anteriores em PDF - de março a março, vocês encontram minhas colunas. Ah! Se puder e quiser, faça um fanzine você também! É divertido! Se eu tivesse mais tempo, mais dinheiro e mais saco, faria o meu próprio.
Ééé... Hoje em dia ninguém mais faz blog. É mais fácil fazer biquinho.
Sábado, Janeiro 12, 2008
NOVIDADES
1 - WWW.MARJORIERODRIGUES.COM Ainda não está no ar, porque eu preciso largar de preguiça e pagar o boleto. Mas já está pronto. Fiz tudo na raça e tá lindo. Vai ter todas as matérias que eu publicar imprensa afora, os textos do embulho de banana e minhas colunas no site guia da semana. Além disso, vai ter um SEBO e um blog, claro.
2 - Esses dois últimos vocês já podem visitar.
SEBO - WWW.FLICKR.COM/PHOTOS/SEBODAMARJORIE Já tem 20 livros disponíveis e, em breve, vou colocar mais. Os preços são quase simbólicos. Entra lá, quem sabe algum dos livros te interessa.
BLOG - WWW.MARJORIERODRIGUES.WORDPRESS.COM Como é no wordpress, é bem mais organizado do que esse aqui. E eu prometo que não vou fazer dele um blog-vomitório, cheio de posts de mulherzinha como os últimos publicados aqui. Dessa vez, a coisa vai andar! Vai lá!
É isso. O Clap Hands vai continuar no ar porque eu gosto de muita coisa que está nos arquivos. Mas não postarei mais aqui.
Marjorie is claping her fucking hands! || ||
Segunda-feira, Dezembro 31, 2007
A dor se torna física. Minha garganta está toda amarrada, os olhos quentes e o coração pululando. As sobrancelhas estão arqueadas para baixo. Eu sou toda tristeza. Sempre fui de correr atrás de minhas coisas, sempre tentei mudar o que quer que fosse. Sempre fui de esgotar todas as possibilidades. Mas você não. Você me trouxe o intransponível. Você me apresentou à impotência, à imobilidade, ao inevitável. E o que mais machuca é ver que você sabe o quanto isso me deixa triste-triste-triste, mas pensa que uma simples guinada no assunto ( de nossas dores e descompassos para futebol, política, novela, metereologia, o que for) poderá me distrair da tristeza. Como quando pedimos a uma criança que vire a cara para o outro lado quando o tio vai dar a vacina, e dizemos que não vai doer nada. Mentira. Dói sim. Dói sempre.
Só queria arrancar um pouco de sinceridade desse seu peito. Eu queria que você tivesse amor, não piedade. Eu queria que você me quisesse por amor, não porque precisa livrar-se do esperma acumulado porque há tempos eu não te sirvo. Não estou aqui para te servir. Estou aqui para ser amada. Ridiculamente amada. Afinal, sou ridícula - tão ridícula que ainda sinto a garganta amarrada ao redescobrir (deus sabe quantas vezes) essas coisas todas. Descobrir que você não é o homem que eu quero - não completamente. Você tem tudo, exceto uma parte essencial: a parte que deveria gostar verdadeiramente de mim. Você confunde amor com piedade e eu vou ficando, ficando, ficando porque, no fundo, tenho esperanças de que mude o imutável.
Ainda tem lágrima. Enquanto você se surpreende com a quantidade de esperma que seu corpo lhe pede desesperadamente para eliminar, meu corpo tem um reservatório semelhante de lágrimas. Elas estão todas aqui, se acumulando. E eu sempre me surpreendo porque sempre tem mais. A produção aqui continua a todo vapor. E a culpa disso tudo não é só sua. É minha. É minha. Talvez seja toda minha, da minha incapacidade de abandoná-lo por completo. E eu sei, eu sei que continuar insistindo nisso só vai trazer mais tristezas. Seria melhor mantê-lo como uma boa memória do que como uma cicatriz. Mas eu não aprendo. Não mudo. Continuo querendo que o imexível me dê licença para ir atrás da minha felicidade. Devo encarar os fatos, por mais tristes e doloridos que eles sejam: você não me ama. Nunca amará. Nós somos o exemplo mais típico do amor de pica. E, depois de todos os nossos descompassos, o todo acabou se quebrando. Eu fiquei com todo o amor, você ficou só com a pica.
Suas desculpas não mudam nada. Não duvido de sua veracidade. Não duvido que você sinta muito. Mas elas não mudam nada. Eu sei que você sente por não ter mais quem satisfaça uma necessidade fisiológica. Eu sei que é difícil se desvencilhar de uma idéia de pessoa boa, com quem você até casaria, teria filhos e tentaria viver o mais próximo de feliz e o mais próximo de para sempre - mas você simplesmente não quer essa mulher agora. Prefere perdê-la a ter de lidar com o inesperado. Ela chegou. Está aqui e demanda completa dedicação. Você pode e quer dar isso a ela, mas não agora. Porque agora não é o momento. Agora é o momento de ficar em casa com o cobertor e o futebol e a vontade de ser um adolescente dependente por mais tempo. Você não quer ser adulto. E a vinda desta mulher é só mais uma das coisas que te pressionam a sair de casa, a crescer, a largar da barra da saia dos outros. Porque amar é responsabilidade. É compromisso. É como uma conta que você tem de pagar todo mês. Quem ama deve certas satisfações. Quem ama assume dívidas. Quem ama tem de estar lá, tem de estar disponível. E isso tudo é como trabalho para você. É como uma gravata no seu pescoço. Mas, quem avisa amigo é e você sempre me chamou de sua amiga: certas coisas só aparecem uma vez na vida. Se eu for embora, ou melhor: quando eu finalmente tiver coragem de ir embora, quando eu deixar de ser pateta e você me perder completa e eternamente, não haverá nenhuma outra. E isso não é só mais um clichê: eu torcerei pelo resto dos meus dias para que não haja nenhuma outra na sua vida. Para que todas as demais mulheres que me sucederem sejam tremendas filhas da puta. Que pisem no seu calo. Que apontem todos os seus defeitos pelo simples prazer de apontá-los, e não para ver você crescer. Que te traiam com os vizinhos, amigos, enfim, com qualquer pessoa. Que te cuspam na cara. Que te roubem as coisas. Que te façam chorar muito. Muito, muito, muito, muito. Que estourem o seu cartão de crédito. E que, quando ouvirem "eu te amo", digam apenas "obrigada" e mudem de assunto (futebol, política, novela, metereologia, o que for). Que não liguem se vocÊ estiver doente. Que não vibrem quando você conquistar alguma coisa. Que sejam obtusas, burras e fúteis. Que não tenham talento algum. E, principalmente, que não estejam dispostas a mover um músculo sequer para estar com você ou agradar você.
Aí (só aí) você perceberá o amargor da vida: mulher certa é só uma e não volta mais.
Marjorie is claping her fucking hands! || ||
Domingo, Dezembro 16, 2007
Gostar da própria covardia é a coisa mais triste que se pode fazer.
Marjorie is claping her fucking hands! || ||
Sexta-feira, Dezembro 14, 2007
Estou pedindo muito quando digo que quero um amor que seja como uma eternidade de fogos de artifício? Penso que continuo a achar que não.
Marjorie is claping her fucking hands! || ||
Eu preciso reviver tudo. Eu preciso tirar da caixa cada memória. Botar na vitrola cada música. Chorar e cantar junto, no tom incorreto, no tom da dor. Eu preciso viver a perda. Não vai me matar. O que não nos mata nos fortalece, certo? E dizem que, quando a gente está prestes a morrer, a vida toda passa diante dos nossos olhos. E eu tenho que deixar isso morrer. Tenho que botar o amor na cama, cobri-lo até o pescoço, fazer uma balinha de cobertor, niná-lo feito criança - porque ele foi meu filho, no fim das contas. E, quando estiver bem adormecido, injetar bem no fundo de sua veia infinitas doses a mais de morfina do que qualquer ser vivo possa suportar. Eu preciso pôr o amor na cama. Eu preciso adormecer o amor. É preciso deixar morrer. Viver para deixar morrer. Reviver, relembrar. Relembrar é viver, não é? Então eu preciso relembrar tudo e lamentar cada momento bom que já está nas antigas. Chorar pelo que não volta - e chorar justamente porque não volta. Não se morre sem que se recapitule a história toda - afinal, o que está abafado está apenas abafado. É preciso revirar tudo, passar os olhos em tudo. Não se desapega de nada sem dar adeus.
(Mas bem quando eu penso que a morfina já fez efeito, vejo que é alarme falso. Fazer morrer é muito, muito mais difícil do que se pensa. Outra fala que circula pelas ruas é a que diz que morre-se um pouco quando se mata alguém. Acho que, nesse caso, aconteceu o contrário. Estou tentando assassinar o que já corroeu boa parte de mim. O amor é como o câncer. Arranca muito da gente antes que possamos definitivamente arrancá-lo das nossas entranhas).
Marjorie is claping her fucking hands! || ||
É como se tivessem aberto meu peito com uma faca cega. Retiraram meu coração do tórax e jogaram-no ainda vivo do alto de um prédio de 60 andares. Recolheram-no assim que ele se espatifou no chão e, então, colocaram-no de volta no peito e costuraram tudo.
Eu vivo com um coração assim.
Marjorie is claping her fucking hands! || ||
A casa está vazia. Faz frio lá fora e é cedo. Nunca acordei cedo: nunca de livre e espotânea vontade. Mas agora que não te tenho mais, decidi fazer todas as coisas que não fazia antes. Não posso mais ser a mesma. Eu fui tão profundamente verdadeira com você que, se insistir em ser quem sou, ficarei eternamente presa ao amor que sinto por você. E este já não me é mais permitido. É a falta de sorte que me acompanha desde muito cedo - mas, fazer o quê? Cada um nasce com a sorte que tem. Não, não ouso dizer que todo mundo tem a sorte que merece. A rigor, todo mundo merecia toda a sorte do mundo: só assim poderíamos dizer que o mundo é uma competição livre de verdade. Mas não é. Se tem uma coisa que o mundo não é, é justo. Então, nasci sem sorte nenhuma e vivemos em continentes diferentes. Somos continentes diferentes.
Para não me lamentar demais (porque a vida já é muito curta e já passamos um terço dela dormindo), vou sufocar a essência minha dentro do meu esôfago. Ela vai esmurrar minha epiglote todos os dias, querendo sair, querendo o lugar que lhe é de direito. Mas não pode. Porque eu decidi que não. A partir de agora vou fazer tudo ao contrário. Vou trabalhar devagarinho, que é pra manter a cabeça sempre ocupada e evitar sonhar acordada. Sonho sobretudo acordada e você é o personagem principal de todas as histórias. Mesmo as sem sentido. Como quando sonhei que morávamos em um iglu e o sol derretia nossa casa pouco a pouco. Não preciso de análise para saber que casa significa segurança, que casa é conforto, que casa é amor. Tudo isso derreteu. E veja bem: derreter não é acabar. O gelo que derrete não some, é água. A água que evapora ainda é água. E ainda é amor (e do mais puro!) o que sinto por você. Mas o seu medo é maior do que ele, e o envolve, e o engloba: o medo é o sol. O sol nunca destrói as coisas de imediato. Faz isso lentamente. Lento e eficaz. E o amor que tenho ainda é conforto. Ainda me faz me sentir como criança nos braços do pai. Mas abraço bom é abraço firme. Abraço que sabe o seu limite. A água não sabe. Ela invade todos os espaços, penetra na trama das roupas, esfria a pele. Por isso é que ficará aqui dentro. Não morto - porque amor não morre. Derrete.
Vou fazer tudo diferente. Vou viajar para os lugares aonde nunca fui nem nunca tive vontade de ir. Vou tatuar a parte do corpo de que menos gosto. Vou vestir estampas chamativas. Vou pintar as unhas de esmalte bege. Vou parar de acreditar que o amor arrebata.
Mas já levo o resto da vida assim. Não me apego a nada, ninguém ou lugar nenhum. Sou eterna estrangeira, nômade. O amor era a única coisa que eu levava com seriedade. Se, agora não tiver nem isso, então Deus, se é que existe, se esqueceu de mim. Porque, se não me engano, o filho dele (que também é ele e que, supostamente, ama todo mundo) disse que o justo seria ter vida, e vida em abundância. Por mais que a gente pense o contrário, nunca há abundância se tudo é descartável.
Marjorie is claping her fucking hands! || ||
Sexta-feira, Dezembro 07, 2007
Extra-intra-ultra
Estou nua. No palco de madeira. Sujo. O teatro está lotado. E o holofote mira em mim. Sentada. Posição fetal. Será que os bebês choram quando vêm ao mundo porque têm vergonha de adentrar um ambiente todo estranho? Porque têm vergonha do outro? A solidão dói, mas é segura. Você sabe exatamente os limites do seu corpo – onde começa, onde termina, onde dá prazer, onde dói. A ausência de olhos alheios lhe permite ser o que quiser – e o alguém escolhido é sempre você mesmo. Puro. Se há mais alguém, é dramaturgia. Pura também. E verdadeira também, claro. É instintivo. Só somos nós mesmos quando estamos sozinhos, de modo que o melhor lugar do mundo é o útero. Que, mais tarde, é substituído muito porcamente pela casa. A casa, que é uma das primeiras coisas que a gente aprende a desenhar. Porque a casa é o novo útero, é o novo berço, é o novo aconchego. Trancar a porta é colocar roupa no corpo. Sim. Mas estou longe de casa e do corpo. Respiro no ar, não na água, e não há lugar algum de onde sugar os nutrientes já mastigados, já processados, já prontos por amor, caridade e piedade – porque o ser humano é um dos poucos que nascem inúteis e assim permanecem por algum tempo. Totalmente dependentes. E não é o que continuamos a ser, a vida toda? Não é essa a ilusão que nunca se quebra? Reis no escuro do útero, livres dentro de um órgão; conhecedores de si mesmos, donos do pedaço, mas dependentes do tubo que alimenta. Pra fora da vagina, o mundo é palco. E cá estou eu. A luz fria bate em todos os poros da pele. Nua. E a platéia espera. Espeta. Especa. Têm os olhos arregalados, todos eles, mas não estão tensos. Não ouço o som de respiração presa. A atmosfera é de calmaria geral, mole, mole. Menos no palco. Rija. Não sei se tremo de frio ou de medo. Medo de que me descubram, mesmo as pistas estando todas escondidas nas minhas entranhas. O mais engraçado é que, quando você tem um segredo bem guardado, parece que todas as pessoas na rua sabem. Está bem no olho delas. E a platéia toda sabia. Do segredo que está em mim, se veste de mim, mora em mim. Eu sou casa, porto seguro de algo que se alimenta de mim. Porto seguro do que não me segura. Estou bem no meio do palco, longe da borda, mas é um precipício, sei. O meu olho não é diferente do de ninguém, mas não percebo sequer um resquício de segredo em nenhum dos rostos disformes da platéia. Eles parecem planos, lisos, como uma folha de papel. E respiram. Sobretudo, ainda respiram. Os outros. Não prendem a respiração porque sabem do quê estão à espera. Que eu me revele toda? Que eu endireite as costas, afaste os joelhos e ofereça só o que sei que tenho: a mim. A mim e a todas as complicações que, no fundo, são fáceis. A minha alma desafinada. E todas as promessas que nunca paguei. Que eu revele a nudez, porque ela é natural, é de todos, é pura, é animal. A nudez é da natureza que me fez assim ou é de mim? É minha a escolha de me despir? Não. São os olhos que despem. Os olhos dos outros. Sempre. Por isso, nascer é tão traumático. Por isso a nudez é tão traumática. O lado de fora que a porta revela. A abertura da vagina dilatada, a mão enluvada/esterilizada//sagrada do médico. A mão que dá a vida sem te perguntar se você realmente a quer. Revelar a nudez e deixar que o público me tenha é despir-me da dramaturgia da vida e deixar que o útero materno esteja espalhado no rosto de cada um. Não. Encolho-me mais ainda. Não quero o útero inatingível, trincado em cada um dos homens do mundo. Assim, ele nunca será de fato recuperável. Nunca-nunca. Sempre longe de mim. E isso é certeza. Hoje, presa no palco (há algo que me gruda nele, talvez toda a força do voyerismo alheio), não sei onde o útero está, pode estar perdido em qualquer lugar, até mesmo dentro de casa, num canto qualquer por onde sempre passo e nunca tenho a esperteza de olhar. Ou dentro de mim. Não sei – e estou cansada de tantas linhas psicanalíticas sobre as quais apenas li, nunca experimentei. Por medo, talvez. Medo de descobrir a segurança que me descaracterize. Medo de descobrir alguém que não precise de letras, de palavras, de sons, de expressão. Medo de alguém que não tem medo de ficar nua - será que sou eu o útero em que ela está envolta? Só sei que tudo o que sei é que tanto o útero quanto a casa só são bons porque a gente pode usar o pronome “meu” antes deles. “Só meu”, se assim preferir. Encolho-me, enrolo-me, fico feito tatu-bola. Ninguém pode me ver, ninguém pode me ver. Escondo a cara, escondo tudo. Não quero me entregar. Não quero saber de mundo. Mundo nenhum. O holofote frio continua imóvel. Ficarei assim mesmo que todos os membros e dedos adormeçam, que eu nunca mais consiga sair dessa posição. Não me importo. É honra. É honra de quem quer salvaguardar um direito roubado à força. Aos poucos, a platéia engravatada (porque todo mundo tem a sua gravata) vai saindo. É preciso ver o jornal das dez. É preciso pegar o último trem. É preciso dormir para trabalhar amanhã. É preciso levantar cedo para comprar pão, comprar café com pão. E, num resto moribundo de coragem, abro um dos olhos. Teatro vazio. Mas ainda paira no ar o cheiro de gente. A presença dos outros nunca se esvai. Só em casa e no útero. Estico as pernas, que doem. Deito no chão, que me acolhe. O homem do holofote se foi. Ele também tem casa, mulher e filhos. De repente, me desprendo da madeira suja. Vou para casa. Andando, para o sangue circular. E determinada a vasculhar em todos os cantos meus onde é que foi parar o eu intra-uterino.
Marjorie is claping her fucking hands! || ||
Sábado, Dezembro 01, 2007
Marrom
Diante do teu silêncio, sou maçã já mordida. O oxigênio, que é vida para todo o resto dos seres, é morte para minha polpa. Torno-me marrom aos poucos, num princípio de morte.
E a sua é a indiferença mais sincera que eu já vi. Não é despeito nem vingança nem ego ferido. Nada quer provar. É indiferença genuína, de quem já não se importa se há mais alguém no mesmo cômodo, se há mais alguém sob o mesmo teto ou divivindo a mesma cama. É a indiferença de quem deixa as coisas serem assim. Você me deixa ficar ao seu lado como quem está com as costas entrevadas demais para faxinar a casa. Senta-se no sofá e admira o rato que percorre os restos do seu desleixo, enganando a si mesmo, dizendo que não é preguiça, mas sim misericórdia pela pobre vida do rato, que já é curta. E você sabe, talvez mais do que eu, que minha vida será curta se o seu silêncio não for deliberado, silêncio de quem não quer falar, mas silêncio de ausência. Você sabe que eu não suporto a solidão - antes mal acompanhada do que sozinha. Então me tolera. Fica ali, quieto, como se a sua simples presença na sala alimentasse a minha vida.
Mas se olhasse para o lado, se tirasse os olhos da televisão, do computador ou das próprias unhas, saberia que, ainda pior que o silêncio, são as palavras miúdas, soltas uma eternidade depois de eu ter perguntado alguma coisa. Da sua boca saem imensas bolhas de oxigênio que estouram na minha carne, na minha polpa. Na meu corpo mole de fruta. E só o que eu posso fazer é assistir às manchas marrons aparecendo e expandindo-se tórax abaixo, me desidratando e tirando de mim aquilo de que mais me orgulho: o poder de saciar alguém. De ser o suficiente. Deus me livre de ser dispensável. Tudo nessa vida, menos o dispensável.
O amor é verborrágico. Nada mais lógico do que sentir-se apunhalada pelas costas diante de um amante quieto, sem vontade de gastar as preciosas cordas vocais. Silêncio é sinônimo de amor velho, roto, desbotado, enrugado, murcho, maçã que há muito tempo deixou de ser vermelha. O amor é suculento, hidrata e alimenta, senão não é amor. É preguiça de se levantar para ir viver.
E aí eu passo a refletir sobre a minha própria preguiça. E sobre o medo - porque a preguiça é sempre o medo de fazer alguma coisa menos confortável do que ficar sentado. Você só me faz feliz quando o sol bate nos meus olhos. É reflexo fechá-los, mas a luz penetra a pele fina das pálpebras, tornando tudo dourado. Então, meu corpo amolece de felicidade pura e simples. Infantil - pois só as crianças vêem graça nas coisas banais. Então, ouso pensar que a minha vida é toda dourada e que, ao final do dia, depois que o sol se pôr e vier a noite em chumbo, vou voltar para casa e encontrar um homem sorrindo. Passo o dia inteiro fora e por isso, só por isso, é que penso ter um relacionamento feliz. Ao chegar em casa, o dourado desbota. Fica bege. Bege triste.
Mas eu sou a maçã que você morde e larga em cima da mesa porque estava mais com gula do que com fome. Fico à espera - o que mais poderia fazer? Vou apodrecendo lentamente, morrendo sem morrer, e de vez em quando você brinca comigo. Gira-me contra o vidro da mesa, segurando-me pelo cabinho (o cordão umbilical das frutas). Depois distrai-se. Esquece-se. E torna a brincar. Sabe que estou sempre ali - para onde mais iria? Não tenho vez nem voz nem pés. Que posso eu fazer? É mais que preguiça e medo. Eu sou o rato que se alimenta das suas sobras, o rato que precisa das suas sobras para não definhar. O rato com o qual você convive apenas por preguiça - nome mais bonito para medo - e piedade - nome mais bonito para desprezo, afinal a gente só mata aquilo que pode nos incomodar.
Eu não te incomodo. Eu não faço diferença. Eu só estou ali. Eu sou um pedaço de mobília velha. Eu sou tudo o que você não olha porque o cenário é a parte mais desprezível da rotina diária.
Marjorie is claping her fucking hands! || ||
Quarta-feira, Outubro 03, 2007
Já tive uma porrada de blogs desde que inventaram o blog. É engraçado como, depois de um ano, um ano e meio, eu enjôo do padrão que eu mesma, sem querer, criei para o blog e crio outro.
Então, com vocês, meu mais novo blog, no maior estilo diarinho, sem pretensões literárias ou o raio que o parta. Só pra ser deliciosamente idiota.
Vai ficar lá até sexta-feira da semana que vem (28/09).
(E eu ando blogando tão pouco que o jeito seria fazer um twitter, hahaha)
Marjorie is claping her fucking hands! || ||
Sábado, Setembro 15, 2007
Se alguém sente alguma curiosidade de saber por que este blog anda às moscas, eu tenho algo a cantarolar:
"It's been a hard day's night and I've been working like a dog"...
Meus dias têm tido no mínimo 12 horas de duração. Virei peã, basicamente, e o mais "legal" é que os músculos da pálpebra inferior do meu olho direito tremem de cinco em cinco minutos há uma semana. "É estresse", dizem a mãe, os amigos e os colegas de trabalho. "São muitas horas passadas em frente ao computador", diz a wikipedia. E eu respondo: "Que maravilha, héin!", porque eu não vou conseguir me livrar de nenhuma das duas coisas. Vale mais uma citação:
"Ê ô ô, vida de gado, povo marcado, ê, povo feliz"....
...Espera aí. Feliz? É, talvez. Agora eu entendo porque algumas pessoas dizem que a felicidade mora nas pequenas coisas. Eu nunca me senti tão feliz em ver o sábado chegar.
Volto quando sobrar tempo para alguma criatividade e menos trabalho mobral.
[update] ok, agora o meu polegar direito é quem não pára de tremer involuntariamente. Estou oficialmente com medo. Se eu não voltar, é porque tive um derrame ou entrei para o clubinho do Michael J. Fox.
Marjorie is claping her fucking hands! || ||
Sábado, Agosto 25, 2007
Cansei de decepcionar. Então quer saber? Desisti de tentar agradar também.
Percebi que, ao tentar agradar os outros, estava apenas tentando agradar a mim mesma. Mas o que sobra, o lixo no canto da rua, abandonado em todas as calçadas, é o lixo, o mesmo lixo, sempre: a frustração que é a minha. O jogar turbulento de palavras no teclado, só pra sentir a raiva que sai do barulho delas. Eu me lembro do meu pai batendo a cadeira no chão: vai ver é o mesmo sentimento. Tudo nesta vida é hereditário, até o que a gente não quer ser.
E eu estou sou triste e deprimida e frustrada e assim que é.
Cansei de tentar ser jornalista, cansei de tentar ser escritora de merda, cansei de tentar ser. Simplesmente.
Marjorie is claping her fucking hands! || ||
SÓ O SANGUE E AS SOBRAS.
O LEITO, DA MORTE EM VIDA. SINA.
A COBRANÇA. DO IMPOSSÍVEL AMARGO.
O FRIO.
E O PORVIR NO FIM DO TÚNEL. O TÚNEL: CABEÇA?
NEM TRONCO, NEM MEMBROS. A CABEÇA NUA. E CRUA. REI. O CENTRO. E O CETRO.
O INSTINTO.
PINTO. DE CORES AINDA SEM SIMBOLOGIA.
E O TRISTE. EU. TRISTEZA É CONSTANTE. LEI. FÍSICA. QUÍMICA E BIOLOGIA DO FRUSTRAR-SE.
Sinto saudades. Por conta da memória que traveste os momentos ruins de bons.
Marjorie is claping her fucking hands! || ||
Terça-feira, Agosto 14, 2007
Dê asas à minha cobra
Dentro da gaiola, o mundo gira lá fora. O mundo grande, o mundo imenso, o mundo que não é meu. Nem seu. Parece que é de todo mundo, menos da gente. Ergo as mãos pra cima, entre a água, o cafezinho e a pausa sagrada para o cigarro: “ô, deus, dá asas à minha cobra!” – mas deus é surdo para quem não tem dinheiro nem sorte. E assim vou ficando, lamentando as distâncias. Dói é saber que sou a única a lamentá-las: você não tem cara de pau de se arriscar, de ser peixe na rede grande do amor. Você tem medo do mundo e eu penso: quero sua asa na minha cobra. Pra você, o mundo é casa, é clausura, é o conforto dos lençóis, da TV, da geladeira, da comidinha da mamãe. Adolescência tardia: a patetice coletiva do novo milênio. Bem que eu também queria, mas não posso. Nasci rastejante, criatura de chão: tenho pouco tempo para aprender a subir em galho para de lá, arriscar a imaginar que tenho asas – ou pelo menos braços, para batê-los enquanto vôo em pensamento. Eu preciso voar o mundo e, entre as muitas coisas boas do mundo, está você re-lu-zin-do. Mas você quer a opacidade das cortinas fechadas, a coisa certa, o terreno seguro, a trincheira bem profunda. Eu quero correr no meio do tiroteio, me esquivando e rebolando feito personagem de desenho animado. Resgatá-lo da trincheira e convidá-lo a dizer: “e daí se eu morrer?”. O claustro não mais me basta, mas somos bichos da mesma espécie. Troquei de pele... E você? Você se apega à infância querida que os dias não trazem mais. Atravessa fases, tal qual uma criança ou um herói de videogame. Minha única fase é a de perguntar por quê. Jamais sairei dela e, entre a última tragada e mais uma golada no café de todos, pergunto-me se o deus surdo sabe mesmo o porquê de todas as coisas. Você nos quer cantando um pro outro, dentro de duas gaiolas isoladas. Não sei viver assim. Mas também não sei viver sem isso. Sem você.